Mulheres e corrida: especificidades fisiológicas e desafios

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Em 1967, Kathrine Switzer se inscreveu na Maratona de Boston sob as iniciais “K.V. Switzer”. Quando o organizador percebeu que uma mulher estava correndo sua maratona, ele tentou fisicamente retirá-la da prova. Ela cruzou a linha de chegada. Quase sessenta anos depois, as mulheres representam mais da metade dos inscritos em corridas de rua. A revolução está feita, mas as especificidades permanecem — fisiológicas, culturais, de segurança — e merecem ser compreendidas em vez de ignoradas.

Diferenças fisiológicas reais, mas frequentemente mal interpretadas

As mulheres têm em média um VO2máx inferior em 15 a 30% ao dos homens — menor taxa de hemoglobina, coração menor, maior porcentagem de massa gorda (essencial para a função reprodutiva). Não é uma opinião, é fisiologia.

Mas esses números brutos escondem nuances importantes. A diferença se reduz em atletas bem treinadas. E, acima de tudo, as mulheres parecem ter vantagens específicas em provas de ultraendurance: melhor utilização de gorduras, gestão mais consistente do esforço e uma resistência à fadiga que faz com que a diferença de desempenho entre homens e mulheres diminua à medida que a distância aumenta. Em provas de mais de 200 km, algumas mulheres competem com os melhores homens. Pelo que li, é um campo de pesquisa fascinante.

O problema não é a diferença fisiológica em si, mas a sua interpretação. Por décadas, isso serviu para excluir as mulheres da competição. Podemos reconhecer diferenças biológicas sem que isso seja um argumento de hierarquia — é apenas uma questão de honestidade intelectual.

O ciclo menstrual: um fator, não uma fatalidade

Por muito tempo um tabu no esporte, o ciclo menstrual finalmente tem sido objeto de verdadeira atenção científica. E os resultados são mais cheios de nuances do que às vezes lemos.

O ciclo, com duração média de 28 dias, decompõe-se em fases com perfis hormonais distintos. A fase folicular (dias 1 a 14 aproximadamente), com estrogênios crescentes, parece para algumas mulheres mais favorável a esforços intensos. A fase lútea (dias 15 a 28), com progesterona em alta, está associada a uma temperatura corporal mais elevada e uma percepção de esforço aumentada.

Mas — e isso é crucial — a variabilidade individual é enorme. Algumas corredoras não sentem nenhum efeito. Outras experimentam flutuações significativas. Recordes mundiais já foram batidos em todas as fases do ciclo. O erro seria generalizar, em um sentido ou em outro.

O que parece certo é o interesse em acompanhar o próprio ciclo para entender seus padrões individuais. Vários aplicativos permitem cruzar dados de treino e ciclo menstrual. Não para se proibir de correr em certos períodos, mas para adaptar-se inteligentemente — posicionar as sessões mais exigentes nos momentos mais favoráveis, quando possível.

RED-S e tríade da atleta: o perigo silencioso

A síndrome RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport - Deficiência Energética Relativa no Esporte) é um problema de saúde real que afeta principalmente as corredoras (mas também os corredores). O princípio: a ingestão calórica não cobre as despesas relacionadas ao treinamento. Um déficit energético crônico.

As consequências se sucedem: perturbação do ciclo (amenorreia), fragilização óssea (fraturas por estresse), distúrbios hormonais, queda paradoxal de desempenho, fadiga crônica, alterações de humor. É um ciclo vicioso insidioso porque os primeiros sinais — perda de peso, amenorreia — são às vezes percebidos como «normais» ou até desejáveis em uma cultura esportiva que valoriza a magreza.

Sejamos claros: perder a menstruação não é um sinal de treinamento ótimo. É um sinal de alerta. Qualquer plano alimentar para uma corredora deve ser supervisionado por um profissional de saúde ciente dos riscos da RED-S. Eu não sou médico, mas me parece ser um assunto em que não se deve correr riscos.

O ferro: um desafio subestimado

As corredoras são particularmente expostas ao risco de deficiência de ferro. A menstruação + a destruição de glóbulos vermelhos pelo impacto no solo + as perdas pelo suor, tudo isso contribui. Estima-se que até 30% das corredoras de endurance tenham deficiência de ferro, com ou sem anemia.

Os sintomas são frequentemente atribuídos ao overtraining: fadiga incomum, queda de desempenho, falta de ar desproporcional, recuperação prejudicada. Um simples exame de sangue com ferritina (não apenas hemoglobina) pode mudar tudo. É um exame que toda corredora regular deveria fazer pelo menos uma vez por ano.

A segurança: um assunto que nem deveria existir

É impossível falar sobre mulheres e corrida sem abordar a segurança. As pesquisas são claras: a maioria das corredoras já foi assediada verbalmente durante uma corrida, e muitas modificam seus hábitos em consequência — evitar correr sozinha, evitar certos horários, compartilhar sua localização GPS.

É uma realidade que pesa sobre a prática, e não deve ser minimizada. O problema não é que as mulheres correm sozinhas — é que certos comportamentos tornam essa liberdade fundamental arriscada. Iniciativas comunitárias e aplicativos de segurança estão impulsionando as coisas, mas o caminho ainda é longo.

Uma progressão histórica notável

A história das mulheres na corrida é uma história de exclusão seguida por uma recuperação alucinante. A maratona feminina só se tornou uma prova olímpica em 1984 — em Los Angeles. Os 5.000 m em 1996, os 3.000 m com obstáculos em 2008. Quando você pensa nisso, essas datas são incrivelmente próximas.

Em paralelo, os recordes caíram de forma espetacular. O recorde mundial feminino da maratona passou de 3h40min em 1964 para 2h09min56s (Ruth Chepngetich, 2024). E, de acordo com minhas leituras, a progressão ainda não terminou — alguns fisiologistas estimam que as mulheres ainda não atingiram seu teto biológico na endurance, simplesmente porque tiveram menos tempo e menos recursos.

Consulte as categorias de idade para ver como os desempenhos evoluem com o tempo, independentemente do gênero.

Adaptar o treino, não limitá-lo

A mensagem central: as mulheres não precisam de um treinamento «aliviado». Elas precisam de um treinamento informado — que leve em conta o ciclo menstrual quando pertinente, que monitore o ferro e o cálcio, que esteja vigilante aos sinais da RED-S, que integre fortalecimento para compensar um risco mais elevado de certas lesões (síndrome femoropatelar, ruptura do LCA).

Os planos de treinamento «unissex» funcionam para muitas corredoras, mas podem ser otimizados integrando esses parâmetros. E a indústria da corrida — ainda largamente masculina em suas instâncias dirigentes — tem todo o interesse em acelerar essa consideração.

Avanços positivos

  • Pesquisa crescente sobre a fisiologia feminina no esporte
  • Conscientização sobre a RED-S e abandono progressivo do tabu da menstruação
  • Participação feminina em constante crescimento em todas as distâncias
  • Equipamentos adaptados (sutiãs esportivos, vestuário técnico)
  • Desempenhos femininos em rápida progressão, especialmente em ultra

Desafios que persistem

  • Mulheres sub-representadas em estudos científicos sobre treinamento
  • Assédio e insegurança que limitam a liberdade de correr
  • Cultura da magreza ainda presente no meio
  • Planos de treinamento raramente adaptados às especificidades femininas
  • Desigualdades em premiação em dinheiro e cobertura midiática

O que aprendi: As mulheres têm especificidades fisiológicas reais que merecem ser conhecidas — não para justificar limitações, mas para otimizar a prática e proteger a saúde. A corrida feminina percorreu um caminho imenso em algumas décadas, mas os desafios de segurança, saúde e igualdade permanecem atuais.

Perguntas frequentes

O ciclo menstrual afeta o desempenho?

Sim, mas de maneira variável. Algumas mulheres correm melhor na fase folicular (após a menstruação), outras não sentem nenhuma diferença. O essencial é conhecer o próprio padrão.

As corredoras têm mais riscos de lesões?

Algumas lesões (fraturas por estresse, periostite) são mais frequentes em mulheres devido à tríade da atleta (deficiência energética, distúrbios menstruais, fragilidade óssea).

Como adaptar o treino ao ciclo menstrual?

Realize as sessões intensas na fase folicular (D1-D14), quando os estrogênios favorecem o desempenho, e diminua a intensidade na fase lútea se sentir fadiga.